Movimentos de protesto como os atuais, sem liderança, sem programa, sem bandeira, são como o mar na praia, cheios de ondas, de vai e vem, de movimentos dentro do movimento, e todos lá cabem, e todos lá se banham. Tem sempre o primeiro dia. Tem sempre o momento em que a mídia, sem saber bem o que fazer, balanceia o discurso de um lado para o outro. Tem sempre o dia em que a Polícia carrega selvaticamente. Tem sempre o dia em que o político (já sem resposta imediata) descansa o aparato policial. Tem sempre o dia dos que se estreiam, que perdem a virgindade da rua. Tem sempre o dia em que todos pensam ter ganho algo. Tem sempre o dia do recuo (quando os políticos sentem medo; aqui foi o recuo nos 20 centavos). E tem sempre o dia de hoje. O dia dos extremistas. Dos nacionalistas. Hoje gritou-se não às bandeiras e aos partidos. Hoje circulam textos sobre infiltrados. Sobre conspirações de direita (que digo, de ultra-direita) para derrubar o Governo Dilma. O dia em que o fogo arde mais do que o devido e a Polícia descansa ainda. Até pode ser que este tenha sido um dia António das Mortes. Mas amanhã é outro dia. As ondas não param.
Eu prefiro referir-me a este dia como um dia histórico. Foi mais um dia de protesto, o primeiro imediato ao recuo nas tarifas. Foi o dia em que ficou claro que não era mesmo por 20 centavos. É o dia em que ninguém pode mais dizer que não percebe o que se quer. Como diz o coronel decrépito, a culpa de tudo isto é da bomba atómica. E a bomba atómica é o povo brasileiro. Salve.
¶ Óbito
James Joseph Gandolfini, Jr.
(18 de Setembro, 1961 – 19 de Junho, 2013)
Porra, não é qualquer um que nos faz ter saudades de tamanho anormal. May you rest in peace paisan!

Folheto anônimo distribuído esta tarde entre os alunos de um colégio particular de classe média em Campinas.
No início eram todos baderneiros. Ponto. Depois a mídia acordou (quer dizer, levou com umas bombas moralizadoras em cima, foi o que foi) e mudou o discurso. Coisa fantástica, certo? Veja-se, até Arnaldo Jabor se retraiu… Tudo parecia então encaminhar-se no bom sentido. Mas não. Agora estagnamos nesta fórmula. Que não é nova, nem vale nada, diga-se. O discurso agora diz-nos que os-protestos-seguiram-pacíficos-o-povo-esteve-sempre-civilizado-cantando-protestando-até-que… E, aí, surgem os vândalos. O fogo, a porrada, e os saques. E aí se cristaliza a narrativa. Serve a todos. Servirá?
E que tal pararmos com esse papo dos vândalos? As manifestações são, regra geral, pacíficas. São. E, ainda assim, sempre surge aquele momento em que há fogo, porrada, quebra quebra e baderna. Sim. E daí? Valerá menos que a pacífica? Não. São tudo expressões do mesmo problema. Em última análise, no fim das contas, mesmo sem sabermos ainda que contas são essas, é precisamente contra isso que o povo se manifesta, contra esse status quo que aceita, perpetuando assim, uma população empobrecida (a vários níveis). Estes cidadãos que violentam os protestos pacíficos não surgem com o cair da noite, não, eles já lá estavam, eles são Brasil. Custa-me assistir, no final do dia, à contagem e ao chorar da propriedade (privada ou pública) depredada. Porque, sejamos honestos, nunca uma agência bancária deveria valer mais que o quotidiano de uma população empobrecida. Mas é a imagem do caixa automático quebrado que circula, que veicula a mensagem final. O que valem esses edifícios depredados quando comparados à humilhação diária de grande parte da população? Que se lixe o prédio centenário! As pichações gratuitas de final de festa são o dia-a-dia de muita gente, por esse país fora. Nos ônibus, nas padarias, nas fábricas, nas casas das patroas. Pichação moral, social, emocional. Nessa altura ninguém fala em vândalos. Pois quem seria então o vândalo, não é mesmo?
Está na altura da inclusão. A rua é de todos (PMs incluídos, viu?). O Brasil é de todos. Deixemos os Vândalos repousar nos livros de História.
Já não bastava a repugnante gentrificação, surge agora a plutocratização…
Tempos estranhos/interessantes, estes.
A propósito deste artigo de Simon Kuper para o FT.
Obrigado Marcos Beccari. Obrigado 100.000 anónimos. Obrigado Brasil. Melhor, o Brasil agradece. Continuemos.

Voltando ao SEM-VI-O-LÊN-CIA-! do post anterior, pergunto-me quanto da sua força ecoará nestas ruas assépticas? Como parto do princípio (porventura errado, posso admitir) de que as ruas de São Paulo só se juntam a estas por meio das televisões, dos jornais e das rádios, desconfio que o poderoso som que desafia as autoridades policiais, hoje mesmo, agora, enquanto escrevo estas palavras, não vai causar impressão alguma dentro destes muros. É pena. É triste. Há quem prefira viver COM-VI-O-LÊN-CIA-!… Porque uma coisa é certa, ontem visitei* alguém neste condomínio e posso garantir-vos que foi das experiências mais violentas por que passei desde que aqui cheguei… Eu estive por lá nem uns dez minutos. Nem imagino o que seja ali ficar por vários anos. Medo.
* Vistar é o termo. Ninguém entra numa penitenciária, pois não? Quem lá vive, foi lá posto; só quem visita, entra. Qual, então, o melhor termo para quando se pretende, de vontade própria, sem coação (e não me venham dizer que a “bandidagem” é a coação neste caso; acho que já estamos um pouco além disso) ir viver dentro de algo fortemente murado, televisionado, segurado? Ontem cadastrei-me neste condomínio? Ontem dei entrada neste condomínio? Ontem recenseei-me neste condomínio? Mais. O próprio segurança no portão mencionou que o motoboy me iria resgatar mais à frente para me levar ao meu destino. A Segurança (assim, com maiúscula), e a sua consequente insegurança, é todo um léxico, em certas zonas do Brasil. Livra!
Essa toada, que marca as ruas de São Paulo nos dias que correm, merece reflexão. Esse refrão é muito mais certeiro e potente do que se possa imaginar. E esse poder consiste exatamente em espelhar o oposto que apregoa — acreditem, estar a partir montras ou a tacar fogo em lixeiras, ou estar a gritar, parado, SEM-VI-O-LÊN-CIA-!, vai dar exatamente no mesmo. Serei só eu, ou este pregão é de uma violência enorme? Eu oiço-o, e vejo-o (ver links mais abaixo), e dou comigo a pensar na violência desse som incessante, insistindo, num loop atrevido, em espetar um dedo numa ferida que ninguém parece querer ver. Essa lenga-lenga assusta (mesmo que não dêem conta imediata) certamente os ouvidos da classe média, das elites, dos políticos e, claro, dos PM. [Não esquecer nunca que os PM têm ouvidos.] Porque esse grito, mais, essa exigência, desmascara, ele coloca em cima da mesa (que é agora a rua) a evidência do(s) descontentamento(s) e, mais do que tudo, das posições tomadas, dos lados assumidos. E mostra, sobretudo, essa coragem que é precisa para proclamar publicamente que não se sabe bem o que se quer (porque não se sabe ainda, pois não?), que nem sequer se sabe lá muito bem o que é um lado. É preciso muita coragem para tal, para sair na rua e gritar a violenta evidência da falência generalizada. Mesmo que com a certeza de a resposta ser a violência de um bastão. Aos que estão nas ruas desse país, o meu reconhecimento.
Oito meses e alguns dias depois — já noutro bairro, de outra cidade, de outro país, de outro continente, de outro hemisfério —, eis-me de novo por aqui. O velhinho Anauel mantém-se vivo na memória da rede, enquanto houver rede. Este segue-lhe os passos. Ainda tentei renascê-lo no Tumblr, mas, nah, já não tenho idade para essas coisas ;) Regresso antes ao WordPress, e desta feita devidamente incorporado no meu (também ele recém-renascido) site pessoal. A ver vamos no que isto dá. Sejam bem-vindos a esta nossa nova casa.
