abacate

Ontem ao ver o jogo entre a Ponte Preta e o Vila Nova, em streaming, transmissão da Premiere TV em silêncio, com o notável relato da Rádio Macacada Reunida rodando por cima das imagens em movimento, a dada altura, um dos comentadores atirou para o ar a seguinte frase: «Os jogadores da Ponte estão trocando passes no caroço do abacate…».

O tempo parou ali por um instante. Enquanto as palavras encaixavam mentalmente na ideia que tenho do centro do terreno, as imagens na tela do computador comprovavam a verdade de umas e de outra.

Que delírio! Que coisa mais linda.

O caroço do abacate. O meio do campo. O caroço do campo. O meio do abacate. Os jogadores correm e trocam passes no gramado que, após um exercício único, já nada mais é que polpa. Só aqui.

Claro, veio-me imediatamente à cabeça a polémica afirmação de que o Brasil é o país do futebol (e não consigo sequer pensar/dizer/escrever estas palavras sem o som de Wilson Simonal saltar de imediato…*) e, acima de tudo, me pareceu evidente que, ok, o Brasil seria sempre o país do futebol nem que fosse pela linguagem. Aqui no país do futebol os seus habitantes tratam a língua como certos jogadores tratam a redondinha. Com um carinho e uma especial devoção a que poucos se atrevem. É verdade que aqui, no país da iliteracia, tem muita gente pontapeando as letras e a gramática como ninguém, mas não deixa de ser verdade que aqui, na terra onde Garrincha se levantou um dia, tem muita gente tornando as palavras algo de muito solto, vivo e único. Aqui.




* Não deixa der ser interessante que na música do Wilson Simonal não aparece “Brasil”, mas antes “aqui”, “Aqui é o país do futebol”… Lá está, aqui. Aqui, enfim, onde tudo é possível.

§639 · May 21, 2014 · Uncategorized · Tags: , , · [Print]

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