Só conseguiu ser verdadeira, mesmo, em dois únicos momentos.


1. Quando afirmou que não ia tolerar mais desacatos, mais baderna, mais depredação. Não percebeu portanto que a verdadeira violência não é a do finalzinho das passeatas, mas antes a do Estado, a do status quo segregacionista, a das máfias instaladas, a da corrupção generalizada…
2. Quando exigiu (pior, ela pediu exigindo) que o Brasil baixe as orelhas e seja bom anfitrião em 2014. Não percebeu portanto que o quotidiano dos brasileiros é infinitamente mais importante que uma cerimónia (à falta de melhor termo) organizada pela FIFA.


Exigia-se que fosse verdadeira, mesmo, o tempo todo. Não o foi. Falhou redondamente. Certamente muitos acharão que esteve bem e aceitarão de bom grado o migué. Uma coisa é certa, o Brasil continuará a seguir no bom rumo (não estou, mesmo, a ser irónico) e a Copa será um sucesso, mas enfim… Amanhã é outro dia.

§181 · June 21, 2013 · Uncategorized · (No comments) · Tags: , ,


O silêncio vindo de cima está ficando ensurdecedor. As suas palavras do outro dia (que até foram sensatas) ruiram ontem, com as ruas tomadas (será mesmo?) pela direita. Seus imensos ex-apoiantes, a “esquerda” desapontada, deitaram-se ontem à noite na maior das angústias. Hoje seria um bom dia para a senhora vestir uma camiseta, não precisa ser uma camiseta vermelha do PT, mas algo mais leve, algo menos Merckel, e falar ao país. Porque, pode acreditar, há muita gente desapontada e angustiada, mas há muito mais (mas muito mais mesmo) gente com medo. Se nem os protestantes sabem bem o que querem (esta frase tem de começar a desaparecer desta discussão…), isto é, se nem os protestantes se dão conta de que a verdadeira «violência em seu sentido mais radical está na multiplicidade, na pluralidade, na diversidade de modos de pensar» (Marcos Beccari, aqui), imagine a senhora o que não pensarão, sentirão, imaginarão, os que não protestam, os que nem concebem a rua, nem a rede social, nem o human mic… Deveria falar para esses acima de tudo. Prove que Boaventura Sousa Santos está certo e que a senhora acordou. O país agradeceria.

§164 · June 21, 2013 · Uncategorized · (No comments) · Tags: , ,


No início eram todos baderneiros. Ponto. Depois a mídia acordou (quer dizer, levou com umas bombas moralizadoras em cima, foi o que foi) e mudou o discurso. Coisa fantástica, certo? Veja-se, até Arnaldo Jabor se retraiu… Tudo parecia então encaminhar-se no bom sentido. Mas não. Agora estagnamos nesta fórmula. Que não é nova, nem vale nada, diga-se. O discurso agora diz-nos que os-protestos-seguiram-pacíficos-o-povo-esteve-sempre-civilizado-cantando-protestando-até-que… E, aí, surgem os vândalos. O fogo, a porrada, e os saques. E aí se cristaliza a narrativa. Serve a todos. Servirá?

E que tal pararmos com esse papo dos vândalos? As manifestações são, regra geral, pacíficas. São. E, ainda assim, sempre surge aquele momento em que há fogo, porrada, quebra quebra e baderna. Sim. E daí? Valerá menos que a pacífica? Não. São tudo expressões do mesmo problema. Em última análise, no fim das contas, mesmo sem sabermos ainda que contas são essas, é precisamente contra isso que o povo se manifesta, contra esse status quo que aceita, perpetuando assim, uma população empobrecida (a vários níveis). Estes cidadãos que violentam os protestos pacíficos não surgem com o cair da noite, não, eles já lá estavam, eles são Brasil. Custa-me assistir, no final do dia, à contagem e ao chorar da propriedade (privada ou pública) depredada. Porque, sejamos honestos, nunca uma agência bancária deveria valer mais que o quotidiano de uma população empobrecida. Mas é a imagem do caixa automático quebrado que circula, que veicula a mensagem final. O que valem esses edifícios depredados quando comparados à humilhação diária de grande parte da população? Que se lixe o prédio centenário! As pichações gratuitas de final de festa são o dia-a-dia de muita gente, por esse país fora. Nos ônibus, nas padarias, nas fábricas, nas casas das patroas. Pichação moral, social, emocional. Nessa altura ninguém fala em vândalos. Pois quem seria então o vândalo, não é mesmo?

Está na altura da inclusão. A rua é de todos (PMs incluídos, viu?). O Brasil é de todos. Deixemos os Vândalos repousar nos livros de História.

§82 · June 19, 2013 · Uncategorized · (No comments) · Tags: , , ,


Alphaville
Voltando ao SEM-VI-O-LÊN-CIA-! do post anterior, pergunto-me quanto da sua força ecoará nestas ruas assépticas? Como parto do princípio (porventura errado, posso admitir) de que as ruas de São Paulo só se juntam a estas por meio das televisões, dos jornais e das rádios, desconfio que o poderoso som que desafia as autoridades policiais, hoje mesmo, agora, enquanto escrevo estas palavras, não vai causar impressão alguma dentro destes muros. É pena. É triste. Há quem prefira viver COM-VI-O-LÊN-CIA-!… Porque uma coisa é certa, ontem visitei* alguém neste condomínio e posso garantir-vos que foi das experiências mais violentas por que passei desde que aqui cheguei… Eu estive por lá nem uns dez minutos. Nem imagino o que seja ali ficar por vários anos. Medo.

* Vistar é o termo. Ninguém entra numa penitenciária, pois não? Quem lá vive, foi lá posto; só quem visita, entra. Qual, então, o melhor termo para quando se pretende, de vontade própria, sem coação (e não me venham dizer que a “bandidagem” é a coação neste caso; acho que já estamos um pouco além disso) ir viver dentro de algo fortemente murado, televisionado, segurado? Ontem cadastrei-me neste condomínio? Ontem dei entrada neste condomínio? Ontem recenseei-me neste condomínio? Mais. O próprio segurança no portão mencionou que o motoboy me iria resgatar mais à frente para me levar ao meu destino. A Segurança (assim, com maiúscula), e a sua consequente insegurança, é todo um léxico, em certas zonas do Brasil. Livra!


§21 · June 17, 2013 · Uncategorized · (No comments) · Tags: , , ,


Essa toada, que marca as ruas de São Paulo nos dias que correm, merece reflexão. Esse refrão é muito mais certeiro e potente do que se possa imaginar. E esse poder consiste exatamente em espelhar o oposto que apregoa — acreditem, estar a partir montras ou a tacar fogo em lixeiras, ou estar a gritar, parado, SEM-VI-O-LÊN-CIA-!, vai dar exatamente no mesmo. Serei só eu, ou este pregão é de uma violência enorme? Eu oiço-o, e vejo-o (ver links mais abaixo), e dou comigo a pensar na violência desse som incessante, insistindo, num loop atrevido, em espetar um dedo numa ferida que ninguém parece querer ver. Essa lenga-lenga assusta (mesmo que não dêem conta imediata) certamente os ouvidos da classe média, das elites, dos políticos e, claro, dos PM. [Não esquecer nunca que os PM têm ouvidos.] Porque esse grito, mais, essa exigência, desmascara, ele coloca em cima da mesa (que é agora a rua) a evidência do(s) descontentamento(s) e, mais do que tudo, das posições tomadas, dos lados assumidos. E mostra, sobretudo, essa coragem que é precisa para proclamar publicamente que não se sabe bem o que se quer (porque não se sabe ainda, pois não?), que nem sequer se sabe lá muito bem o que é um lado. É preciso muita coragem para tal, para sair na rua e gritar a violenta evidência da falência generalizada. Mesmo que com a certeza de a resposta ser a violência de um bastão. Aos que estão nas ruas desse país, o meu reconhecimento.