Neste preciso momento não tive dúvidas. Até este momento, estava temendo o pior. Seria a saída mais inglória possível – como poderia alguma vez esta Holanda cair num gramado pisado por Pedro Proença?! (hás-de ser escroto até morrer…) — mas este remate de Wesley Sneijder levantou o coração laranja. Levantou o mundo. Aqui não tive dúvidas. E tenho testemunhas que afirmei que não ia para prolongamento, Klaas-Jan Huntelaar resolveria nos minutos que restavam. Assim foi.






Sexta-feira passada, ao fazer o programa, tive uma epifania. Esta vai ser a banda sonora do jogo mais logo. Este tema dos loucos Cream Abdul Babar, mais o seu nome sugestivo, vai servir que nem uma luva no Omschakeling e descreve sonoramente o que eu espero que se passe hoje no jogo Holanda vs México. Os primeiros 50 segundos correspondem às duas equipas a ambientarem-se uma à outra e, essencialmente, ao clima. Um calor dos diabos e uma humidade absurda, que ambos os times terão de superar (não esqueçamos que boa parte dos jogadores mexicanos joga na Europa). Dos 0:50 aos 2:15 a Holanda mostra os dentes, acelera e, de ameaça em ameaça, chega ao intervalo a vencer por 2 a 0. Os golos do primeiro tempo estão nas marcas 1:35 e 1:38. Dos 2:18 até aos 2:25 (a marca do intervalo) a seleção mexicana não sabe o que fazer à vida. Durante o início do segundo tempo, até aos 2:50 o México pensa, tenta, ensaia enquanto a Holanda estuda, aguenta, deixa jogar, e, de repente, dos 2:50 aos 3:10 uma nova sucessão de ataques venenosos (mas sem resultado). Daí em diante, durante a maior parte do segundo tempo, o jogo é hipnótico, uma morrinha instala-se, as forças distendem-se. Aos 4:16, do nada, sai novo ataque e novo golo. Não interessa muito saber quem marca, quem faz o passe mortal, quem se desloca, quem executa. Omschakeling afinado. A Holanda vence o México por 3 bolas a 0. E segue para as quartas-de-final.




Quando a Holanda chegou no Brasil vinha de um dos mais negros períodos da sua história futebolística. E não falo apenas do tremendo desaire de há 2 anos atrás, no Euro 2012. Não, até porque esse tremendo desaire nada mais foi que a célebre frase karma’s a bitch posta em prática, e com os devidos requintes de malvadez. Sim, aquele tremendo desaire era a paga da ousadia de 2 anos antes, na verdade, de 4 anos antes (quando Marco van Basten passou o testemunho a Bert van Marwijk). Sim, aquele tremendo desaire foi a paga pela campanha realizada no Mundial de 2010. Como é? Sim, meus caros, a campanha de 2010 foi uma das mais miseráveis prestações holandesas de sempre. Como é? Mas não foram até à final? Sim, fomos. Mas em troca de quê? Meus caros, a campanha de 2010 tresandava a Fausto. Bert van Marwijk (de mãos dadas com o pequeno genial Sneijder) trataram de arrumar implacavelmente com tudo aquilo que a Holanda tem de mais bonito, o futebol espetáculo. A Holanda desse período negro assumiu um único objetivo: ganhar. Vendendo a alma ao diabo, aquela seleção laranja encarnou o mambo jambo mourinhesco dos resultados acima de qualquer coisa e foi em frente, até à final. Esquecendo tudo o que vinha de trás, esquecendo os adeptos, esquecendo aqueles que gostam de ver futebol jogado ao mais alto nível. Naquela copa a Holanda fez 45 minutos de luxo frente ao Brasil e pouco mais. E acabou na final, tal e qual como começou, sem nada. Mentira. Sem nada e, agora, sem alma.

Quando a Holanda chegou no Brasil tudo isso estava entretanto resolvido. Muita gente tinha saído, novas caras tinham surgido. Mas muitas dúvidas pairavam sobre a abordagem do sucessor de Bert van Marwijk, Louis van Gaal. Na sua segunda prestação no comando da oranje elftal (sendo que a primeira foi um desastre total; culminando com a não qualificação para o Mundial de 2002), Louis van Gaal ia desde logo partindo a loiça toda ao insistir numa aberração (abdicar da posse de bola?!) chamada 5-3-2. É verdade que (uma vez mais) a Holanda era a primeira equipa europeia a classificar-se, sem uma única derrota. É verdade que a renovação da equipa estava bem assumida e realizada, esta é a seleção laranja mais nova de sempre. Uma incógnita, é certo, mas a dar resultados interessantes, e a revelar nomes sem dúvida com futuro. Mas e aquele 5-3-2? Muita gente vaticinou mais uma campanha desastrosa. Muita gente não aceitou que, afinal, o prometido regresso do 4-3-3 tinha ficado em águas-de-bacalhau. E tanta garotada? Só podia dar asneira…

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Quando a Holanda chegou no Brasil a garotada vinha feliz, sabendo-se a caminho de um eldorado que por si só já era um eldorado. Ir na copa das copas, e ainda para mais no Brasil?! Beleza! Mal chegaram no hotel (em plena Ipanema, Rio de Janeiro; poderia alguma vez a escolha ter sido melhor?) a primeira coisa que fizeram foi ir passear na praia. Apanhar ar. Mergulhar. Dar autógrafos. A garotada estava no melhor dos mundos, vivendo um sonho. Jasper Cillessen (o goleiro), enquanto a comitiva entrava no hotel chegou mesmo a perguntar ao conciérge quem de tão importante estava hospedado no hotel, estranhando tamanho número de repórteres, camêras e flashes televisivos… Não se tocando de que o circo mediático era por causa dele (e dos seus colegas), eles eram a notícia! Este episódio é delicioso e mostra bem o espírito da coisa. Verdade que pode ser visto como o tal cerne das preocupações de tantos, mas um episódio delicioso é sempre um episódio delicioso.

Quando a Holanda chegou no Brasil sabia que estava num dos grupos difíceis, junto com o campeão em título (que 4 anos antes acabara com o sonho holandês), com um Chile que prometia muito e com uma Austrália que todos sabiam não ser mole. Mas a Holanda sabia que desta vez era para ser feliz — «Tudo bem, pode até ser que sejam apenas 3 jogos, mas enquanto cá estivermos vamos fazer disto uma festa.» Suspeito mesmo que Louis van Gaal percebeu a importância do papel familiar na notável, eficiente e espetacular campanha de 2008, na Suíça, e que tudo fez para replicar (estas imagens são excepcionais!). Bem ao contrário do seu antecessor, que na campanha sul-africana proibiu mesmo que as famílias dos jogadores viajassem para a África do Sul. Desta vez isso não rola. Elas, as famílias, as mulheres e as crianças, os pais e os amigos estão cá, e é para ficarem. Os treinos são abertos, a galera vai na praia, no calçadão, no shopping, no Corcovado. Beleza!

Mas tudo isso agora é passado. A Holanda chegou no Brasil e a Holanda continua no Brasil. E com o tal do famigerado (ter posse apenas para marcar gols?!) 5-3-2… Que tanta alegria e resultado deu frente à Espanha (nem vou perder tempo aqui com esse jogo; quem viu viu, quem não viu, temos pena; uma coisa é certa, quem viu saberá sempre onde estava quando o viu…), à Austrália (que jogo!) e ao Chile (de uma eficiência atroz!). Três centrais (Ron Vlaar, Stefan de Vrij e Bruno Martins Indi), ladeados por dois elementos mais móveis (Daley Blind e Daryl Janmaat); no meio, os destrutores e construtores (Nigel de Jong, Jonathan de Guszmán e Wesley Sneijder); e na frente os espigões letais (Robin van Persie e Arjen Robben). E depois tem o banco. Um banco recheado de nomes que ninguém conhece, mas que, quando entram, maravilham. Certo, tudo isto é muito bonito no papel, mas também é verdade que tudo isto tem saltado para o gramado da melhor forma. E conteúdo. Forma e conteúdo. Uma vez mais, tantos anos depois, Total Design e Totaal Voetbaal parecem confundir-se novamente. Beleza!

Agora que a Holanda continua no Brasil, o 5-3-2 parece já não dar dores de cabeça a quase ninguém. Se há umas semanas atrás vozes se levantavam contra este tipo de jogo, apelidando-o de “futebol reativo” (como sendo algo de horrendo), hoje essas vozes estão silenciosas. Aliás, hoje, no dia de recesso, após a fase de grupos, o muito interessante texto de Simon Kuper (no Financial Times) esclarece muita coisa. No texto Kuper atira para cima da mesa o termo Omschakeling. Omschakeling pode ser entendido como mudança, alteração, reação, turn of events, adaptação, ajuste. Omschakeling é perfeito. A copa das copas ficará, cheira-me, para a história como a copa do Omschakeling Voetbaal. Um futebol mutante. Um estilo de jogo altamente maleável (na verdade, se o 5-3-2 é o sistema que entra em campo nem sempre o 5-3-2 é o que acontece em campo…) que se transforma consoante as necessidades. As necessidades têm sido bem identificadas e o sistema tem correspondido, com uma eficiência implacável diga-se. O segredo reside essencialmente em continuar a saber identificar as necessidades, mas agora num tempo curto e altamente exigente. Pois os jogos são agora a doer, já não há cá grupos para ninguém. Até à data Louis van Gaal tem sabido, com verdadeira mestria, interpretar o jogo e, acima de tudo, responder sem margem para erro. Os jogadores também. Sobretudo Sneijder (meu maior receio desde o início), o pequeno gigante detentor de um ego acima da média que tem sabido não aparecer, abandonar o estrelato em prol da equipa. Tomara consiga levar essa sua missão até ao final. Até à final. Para já, sem sombra de dúvidas, estão todos de parabéns. Venha o México!



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… desde sexta-feira passada.
Este blog está em suspenso indeterminadamente.


§715 · June 15, 2014 · Uncategorized · (No comments) · Tags: , ,


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§708 · June 12, 2014 · Uncategorized · (No comments) · Tags: , , ,


Protestar contra a Copa é estúpido e estéril. Desculpem-me a franqueza, mas é. Protestar contra a Copa, contra o futebol, contra o escrete, não faz sentido nenhum… É óbvio que vai ter Copa. Mesmo que com protestos, tiros, mortes e o diabo-a-quatro. Com vitória ou derrota dos canarinhos. Com caos aéreo e baderna geral. Com festa e alegria. Ela vai acontecer, ponto final.

Protesto não é crime. Outro ponto final. Mas há que ser sensato, pragmático, inteligente, e escolher bem o objeto abjeto. Não adianta protestar contra o azul do céu.

Proteste-se com a FIFA, sim, contra a FIFA e o modo como ela insiste em sequestrar e violar os países onde monta o seu espetáculo de 4 em 4 anos. Que seja a Copa das copas nesse particular. Se os protestos se centrarem na FIFA, quem sabe ela seja obrigada a rever as suas posições e o seu modus operandi? Isso seria bem legal. O futebol está há demasiado tempo nas mãos de cartolas e bandidos (e serão personagens distintas?). O futebol está há demasiado tempo nas mãos de instituições como a FIFA. O futebol precisa de novos hábitos, de novas mentalidades. Nem de propósito, este mês saiu um textinho de Cruijff sobre precisamente como é preciso dar formação, educação, poder, aos atletas de modo a que sejam eles um dia a tomar em mãos a tarefa de gerir o mundo do desporto.

Proteste-se, exigindo ao Estado o tal padrão FIFA. Nas escolas, nos hospitais, nas prefeituras, nas penitenciárias, nas ruas…

Que se proteste com a mídia escrota. Porque sim, porque é sempre bom protestar contra a mídia escrota.

Que se continue a protestar com o M da PM. Exija-se também padrão FIFA nas forças policiais.

E que se proteste, vigorosamente, com todos aqueles (e não vão faltar!) que insistirem em ligar os dois eventos do ano (Copa e Eleições). Uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa.


E que ganhe a Holanda!




Bom, o circo está montado! A oranje elftal já chegou no Rio de Janeiro e já se instalou num hotel em Ipanema. O coletivo até já teve tempo para ir dar um passeio na praia. E este espaço, como sempre de 4 em 4 anos, veste-se de laranja no dia em que o avião pousa. Venha a Copa!


§679 · June 6, 2014 · Uncategorized · (No comments) · Tags: , , ,